Confrades Fernando David e Silva, e António Bossa Dionísio numa conferência na SHIP

31/02/2022

No âmbito do Ciclo de Conferências – Círculo do Mar, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, organizou a conferência “A Liga Naval em Portugal”.

A primeira intervenção foi realizada pelo nosso ilustre confrade, Contra-almirante EMQ (ref) Fernando David e Silva, que apresentou uma síntese da atividade da Liga no primeiro período da sua existência[1].

A Liga Naval - Contra-Almirante Fernando David e Silva
A Liga Naval – Contra-Almirante Fernando David e Silva

A Liga Naval Portuguesa foi fundada em 1900, a partir de uma proposta apresentada numa Assembleia-geral do Clube Militar Naval. A iniciativa germinava já desde 1897 e encontrou raízes na criação das precursoras do que pode chamar-se “Movimento das Ligas Navais”, as ligas navais britânica (1894) e alemã (1898). A conjuntura internacional era marcada pela corrida aos armamentos navais, resultante da rivalidade entre aqueles dois países, manifestada em especial no que se referia às colónias, terreno em que a Alemanha desafiava o poder instalado do Império Britânico. Os propósitos declarados destas associações eram sensibilizar as opiniões públicas para a importância crucial do poder marítimo no poder nacional e, paralelamente, para a necessidade de serem acolhidas as medidas fiscais que estariam necessariamente subjacentes à construção de navios de guerra e mercante progressivamente mais poderosos.

Inscrevendo o seu pensamento no espírito daquele movimento, a Liga Naval Portuguesa definiu os seus próprios objetivos, adaptados às problemáticas que preocupavam personalidades e instituições ligadas ao Mar, às suas marinhas de guerra, mercante e das pescas. Tendo como primeira figura o então segundo-tenente António Pereira de Matos (1875-1930), que seria seu secretário-perpétuo entre 1902, ano dos primeiros estatutos da Liga Naval e 1930, ano da sua morte, a nova associação realizou o Congresso Marítimo de 1903, o Congresso Marítimo Internacional de 1904, ambos nas instalações da Sociedade de Geografia de Lisboa, e o Congresso Nacional de Pescarias, também em 1904, em Viana do Castelo. Tratou-se de iniciativas originais, que reuniram dezenas de individualidades e associações, em debates sobre os múltiplos problemas que afligiam as marinhas. É plausível afirmar que a grande ambição da Liga Naval era a de federar os interesses ligados ao Mar, tornando-se como que o seu porta-voz junto dos poderes públicos: o chefe do Estado, o governo e as câmaras do Parlamento.

A Liga Naval - aspeto da audiência
A Liga Naval – aspeto da audiência

Na primeira década da sua existência, a Liga publicou um Boletim periódico e editou livros, que integraram a coleção que designou Biblioteca da Liga Naval, na qual é forçoso salientar O Nosso Plano Naval, dado à estampa em 1909, da autoria do então primeiro-tenente Fernando Pereira da Silva.

No contexto do alargamento da esfera de preocupações, do âmbito marítimo, para o âmbito nacional, a Liga Naval promoveu, em maio de 1910, o Congresso Nacional, uma iniciativa que reuniu monárquicos e republicanos, destinada a ter um alcance de relevo, todavia apagado pela Revolução de Cinco de Outubro.

A República deu origem a um ambiente de intranquilidade e de dificuldades para a Liga dado que, por um lado, os seus principais dirigentes eram monárquicos convictos e, por outro, porque, em 1913, no contexto de idêntica posição assumida com outras associações, o governo fez cessar a atribuição do subsídio que lhe permitia manter a sua sede no local de prestígio que era o palácio Calhariz-Palmela, em Lisboa, bem como desenvolver as suas atividades e apoiar as suas diversas representações regionais e locais.

Apesar destas limitações, a Liga Naval envolveu-se, em 1912, no apoio ativo ao ambicioso, mas malogrado plano naval aprovado pelo Congresso da República no ano anterior. No entanto, entre 1910 e 1930, a Liga dedicou a maior parte das suas energias à intervenção política, através de associações cívicas de carácter conservador, que em dado momento se situaram na proximidade do movimento do Integralismo Lusitano, na sua primeira fase, e depois da mais duradoura Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira (1918-1938), que teve oficiais de Marinha ligados à Liga Naval Portuguesa como alguns dos presidentes.

Em 1930, o governo da Ditadura, que tinha o futuro almirante Luís Magalhães Correia como Ministro da Marinha, aprovou um programa naval que, embora tenha conhecido uma execução apenas parcial, foi muito relevante na reabilitação das capacidades da Marinha, até então debilitadas por um longo período sem qualquer remodelação relevante. A Liga foi então chamada, em nome do seu antigo prestígio, a colaborar com o governo na propaganda do programa então aprovado. A Marinha tinha então atingido o “zero naval”, na expressão usada pelo capitão-de-fragata Pereira da Silva, numa conferência realizada naquele ano, na sede da Liga Naval Portuguesa.

A partir de então, a Liga regressou a um certo declínio, marcado pelas dificuldades financeiras e, paralelamente, pela ocupação de parte dos seus espaços de atividade pelas organizações que foram constituindo a estrutura económica e social do Estado Novo, vendo-se forçada a suspender a atividade nos primeiros dias de 1939.

A segunda intervenção

A segunda intervenção foi realizada pelo Contra-almirante AN (ref) António Bossa Dionísio que introduziu a Confraria Marítima de Portugal, da qual é Presidenta da Direção, constituída em 26 de maio de 2009. Em Assembleia Geral Ordinária ocorrida em 11 de março de 2019 foi aprovada a alteração da denominação para Confraria Marítima de Portugal – Liga Naval Portuguesa.

A Liga Naval - Contra-Almirante Bossa Dionísio
A Liga Naval – Contra-Almirante Bossa Dionísio

Os Estatutos identificam que a Confraria – Liga Naval tem como fim promover e divulgar atividades relacionadas com o Mar, numa perspetiva abrangente, nomeadamente de carácter social, cultural, técnico e científico. É assim claramente visível o paralelo de propósitos e do processo fundador das associações criadas em 1900 e em 2009.

Em 2019, já assente nos pilares fundadores e na obra realizada pela Confraria na primeira década da sua existência, abriram-se portas à reivindicação da herança do que de melhor se inscreveu nos princípios e na ação da Liga fundada há 122 anos.

O Mar faz parte do nosso devir histórico, está-nos no sangue. É um dos traços da nossa idiossincrasia como povo de vocação marítima.

O Mar incorpora diferentes setores de atividade e áreas de oportunidade que, para que se possa maximizar o seu aproveitamento, necessitam de uma estratégia nacional coordenada que tenha em conta a nossa posição geográfica, europeia e atlântica.

Com a colaboração e empenho de todos os Confrades, alguns em funções importantes na nossa sociedade civil e militar, o Contra-almirante Bossa Dionísio enfatiza que a Confraria – Liga Naval procura ser influenciadora na recolocação do Mar no centro do ideário nacional.

Permanece assim o propósito de afirmar a divisa adotada pela Liga Naval Portuguesa nos anos iniciais da sua existência: “O Futuro de Portugal está no Mar”.

 

[1] A Liga Naval Portuguesa (1900-1939) foi estudada na sua tese de doutoramento (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2020), publicada em 2021 pelas Edições Revista de Marinha, com o título Liga Naval Portuguesa (1900-2020).

 

 


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